Inspiração.
Procuro… entre a chuva.
Dor.
Suspiro profundo!
Algo cá dentro que se move…
E me envolve devagar,
Num frio quente que arrepia.
Faltou a comunicação,
Falharam as palavras…
Talvez agora o sono e o tempo
Transmitam esta mensagem.
Tudo o que se perdeu, não se perdeu;
Lá ficou, nem à frente nem atrás.
Fica para Sempre dentro do coração
De duas vidas paralelas entre si…
Essa coisa que se move e contorce,
Dobra-se e contrai-se,
E a cada espasmo de saudade em mim!...
Só a dor fica.
Inspiro.
Suspiro.
Ó chuva que torrencialmente cais e escorres pelas paredes
E humedeces o cimento destes edifícios.
Podes lavar fachadas,
Levas contigo a podridão deste sítio.
Sei que trarás mais, enquanto caíres forte neste chão.
Hoje foi dia de tempestade, amanhã do que será!
Se hoje não faz diferença alguma de amanhã…
Para ti chuva, que escorres e cais e torrencialmente
E bates na janela do meu quarto só por bater, ah
Por te ouvir desespero pela canção d’outro lugar!
Ato as velas e o fogo ao fundo do poço
Até que caias e escorras pelas paredes de pedra fria…
Torrencialmente me leves daqui num mergulho,
E baterei com a cabeça no fundo, nas velas e no fogo
Que tornaste fumo por teres chovido e escorrido
Torrencialmente.
Deixaste de falar comigo e eu
Falo com as paredes humedecidas de tanto lhes chorar
Costas contra e o sangue que não lhes deixei beber.
E se elas me odeiam tanto como tu,
Ao menos que tenham razão!
E se a chuva ontem cai e hoje cai e amanha cairá é porque
Nada disso que se diz é mentira…
Porque ontem caímos, hoje caímos e amanhã cairemos.
E não há quem ampare queda esta a minha
E caio, caio
Torrencialmente.
E as paredes torrencialmente lavadas de lágrimas
Levantam-se lentamente…
…e no litígio do lúgubre destino…
Me entregam de braços estendidos ao Luar.
Me entrego de braços abertos ao Luar…
E que podes tu, chuva, lograr de tais trabalhos?
Tantos são os ciclos!
E se quebrasse um? E se fugisse?
Começaria outro de novo?
Não quero ser ciclo, quero ser traço direito!
Se a direito me traço para a morte
Então essa é minha Natureza!
Pessimista? Não! Só renuncio à esperança!
Não me puxes por aí!
Quero ir antes por aqui! Quero?
Já não sei o que quero, porque quis,
Porque caminho fui afinal!
Oh, amor, amor, amor,
Porque foi que me fizeste escolher
O conformismo de um sonho de adulto,
O descanso de alma que tem onde cair?
Criança, onde estás?
Loucura.
Quero ser eu outra vez.
Sou eu outra vez!
Vem aqui, Alma, e senta-te junto a mim.
Lembras-te do tempo que passou?
Lembras-te do meu abraço, do meu beijo?
Lembras-te das carícias e do desígnio?
Vejo-te claramente, daqui de longe.
Sou cega mas sei ver através da escuridão,
Perdi os sentidos, mas posso-te sentir.
E neste mundo para onde me destaquei,
Vejo, sinto e sou, no meu propósito.
O que vejo é meu e só meu, e por mim fica.
Sonhos? A minha mente esconde-os por mim…
E nestes novos olhos que passaram a dor e a tempestade
Há uma nova força e um novo entendimento!
E de vontade pura e robusta construí nova realidade,
Novo Tempo e Espaço onde viver o sentimento.
E quando viajo por outros lados, por outros planos,
Tenho o poder de saltar as fronteiras do oculto.
Ensino então aos meus outros quatro sentidos
Quem és em mim e na fronteira de mim,
E ouço a tua voz no vento,
Sinto a tua pele a cada toque,
O teu sabor em cada trago de ilusão…
O teu cheiro a cada sopro de quimera…